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Arte e antiarte

Se a definição de arte é matéria para mais de um livro de teoria, definir o que é antiarte, então, é uma tarefa dificílima, senão impossível. Isso se ainda for possível pensar o que é algo que não é. Mas, poderíamos dizer, de modo grosso e abusivamente, que arte é o oposto da antiarte. E ficaríamos por aí mesmo, para evitar maiores problemas de conceituação.

Entre a arte e a antiarte, ou não-arte, um termo que se coloca é o da a-arte, ou anarte, com esse alfa privativo - a letra A antes da palavra - de que falava o maestro e professor Koellreuter, não de negação, mas superação de uma coisa por outra, como no caso do tonalismo e do atonalismo, em música. Aquela coisa de incluir semitons, ruídos, quebras da melodia, rompimento com a harmonia, etc.

arte sem arte

Embora superar não queira dizer, necessariamente, continuar em linha reta um programa iniciado pelos antecessores (lembrando que depois de Freud não há como ignorar o complexo de Édipo), o que seria conquistado ao se superar a arte? Talvez tenha sido essa a pergunta que os participantes do movimento Dadá se fizeram, ou fizeram à arte, no já longínquo começo do século vinte: para que serve a arte senão a de estar entranhada no dia a dia do cidadão comum, em sua vida tão pouco sublimada?

O (anti) artista George Maciunas - fundador do grupo Fluxus, que colaborou na alteração do cenário artístico na Europa e nos Estados Unidos depois da segunda metade do século passado - define a arte a partir da anti-arte, dizendo que "os niilistas da arte ou anti-artistas (que geralmente recusam essas definições), ou criam a 'anti-arte' ou trabalham sobre o nada". E que "as formas 'anti-arte' atacam em primeiro lugar a arte enquanto profissão, a separação artificial do artista e do público, ou do criador e do espectador, ou da vida e da arte". Para ele, "a chuva que cai é anti-arte, o rumor da multidão é anti-arte, um espirro é anti-arte, um vôo de borboleta, os movimentos dos micróbios são anti-arte. Essas coisas também são belas e merecem tanta consideração quanto a arte. Se o homem pudesse, da mesma maneira que sente a arte, fazer a experiência do mundo, do mundo concreto que o cerca (desde os conceitos matemáticos até a matéria física) ele não teria necessidade alguma de arte, de artistas e de outros elementos 'não produtivos'". Ou seja, um estado de arte sem arte, onde tudo torna-se material indispensável para a "experiência do mundo".

Além da arte - Mas para que essa "experiência" se concretize, é preciso "desconstruir" muito do que aceitamos como verdade irremediável e tornar, novamente, a alimentar o que alguns chamam de "a criança que vive em nós". Aquilo de ver o mundo como um maravilhoso mistério, de ver cada coisa, por mais comum que seja, como se fosse a primeira vez que aquilo fosse visto. Um descobrir, ao mesmo tempo, um questionar constante sobre o que se está diante de nós, ou, como escrito pelo poeta Oswald de Andrade: "ver com olhos livres".

Liberdade de ação - Mas, "ver com olhos livres" em uma sociedade onde é tudo formatado, tudo padronizado, tudo transformado em mercadoria e espetáculo é mais do que uma mera "experiência" para quem se propõe a correr tal risco. Porque o exercício da liberdade dói, ofende, magoa àqueles que, de uma forma ou de outra, vivem, dependem e defendem um mundo onde ter é mais importante do que ser.

Contrapor e sobreviver ao comportamento aceito como normal, socialmente, foi a maneira que algumas pessoas encontraram para justificar suas vidas, ainda que pagando, muitas vezes, com a própria vida, por suas ousadias. Hans Baader, um dadaísta na Alemanha, por volta de 1916, 1917, foi um desses que, de tempos em tempos passava "férias" em um sanatório e que acabou ganhando uma carteirinha que apresentava à polícia toda vez que se metia em alguma confusão, livrando-o de ser preso.

Temos em artistas como Picasso nossos heróis, vencedores, rodeados de belas mulheres, transformando tudo à sua volta com a genialidade acima do resto da humanidade. Tentar imitá-los é tornar-se apenas ridículo. E temos pessoas à nossa volta que, por mais ridículas que possam parecer à primeira vista, sempre nos dão a lição de que são portadoras de uma liberdade de ação do qual nenhum rótulo, nenhuma estrutura, nenhuma instituição é capaz aprisioná-las, ou domesticá-las. Talvez por dispor da liberdade de um modo tal que muitos - inclusive artistas - apenas sonham poder exercer.

Fonte:Rubens Pileggi Sá

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" ARTE é o conhecimento usado para realizar determinadas habilidades ou beleza transcendente de um produto de atividade humana".


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