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Van Gogh por Van Gogh

Detalhe do olhar de Vang Gogh num dos seus inúmeros auto-retratos

Meio monge, meio artista


Vincent Van Gogh nasceu em 30 de março de 1853 na Holanda e faleceu em 29 de julho de 1890. Neste meio tempo uma vida marcada por frustrações, fracassos, tentativas e angústias.
A sua vida foi toda ela um malogro. Em tudo o que para o seu mundo, para o seu tempo, parecia de importância, foi ele um falhado e sofria de Transtorno Bipolar uma forma de transtorno de humor caracterizado pela variação extrema do humor entre uma fase de maníaca ou hipomania, hiperatividade e grande imaginação, e uma fase de depressão de inibição, lentidão para conceber idéias e realizar, e ansiedade ou tristeza. Juntos estes sintomas são comumente conhecidos como depressão maníaca. Foi incapaz de constituir família, incapaz de custear a própria subsistência, mesmo incapaz de manter contatos sociais. Porém, como pintor, encontrou um meio de opor ao caos da realidade uma ordem – a sua. A arte para ele era um sistema de normas num mundo, melhor: contra um mundo, com o qual obviamente se não entendia, a cuja opacidade opunha uma intransigente e também teoricamente fundada consequência artística. Contra o seu anonimato reagia com fina sensibilidade; o seu constante fluxo enfrentou ele com a vitalidade do homem singular. Não queria recalcar a realidade, nem sofrê-la resignado, mas sim torná-la compreensível, palpável. Através da arte, o mundo que lhe era tão hostil devia tornar-se seu.Só depois de sua morte lhe atribuíram reconhecimento. Com o conceito do gênio, o público burguês cujos valores durante toda sua a vida o haviam enfastiado, encontrou acesso a ele e à sua obra. Vincent, o mal amado, tornou-se herói, tanto mais quanto a arte se estabelecia como um mundo de boas aparências. Na periferia da sociedade, onde a arte desde há cem anos se tem implantado, também o marginalizado van Gogh se torna um personagem, saliente, é verdade, mas personificando exemplarmente o mal estar face à realidade que de fez enquando aflige cada um de nós. O modernismo corteja com agrado a imagem do artista isolado e incompreendido. Também nisso van Gogh foi exemplar. Ele é um dos primeiros mártires da Avantgarde.

Vincent encontra no seu irmão Theodore (Théo) um amigo e confidente, ao qual escreve inúmeras cartas durante sua vida. Encontra no irmão o apoio necessário para continuar a batalhar e a dedicar-se à pintura.
Gogh tentou trabalhar no comercio de quadros, tentou ser professor, pastor, missionário, tentou estudar na universidade de Amsterdã, mas fracassou em cada uma dessas tentativas. Por volta de 1880 finalmente parece encontrar seu caminho definitivo: a pintura.

As cartas de Van Gogh


Na praia de Scheveningen - agosto de 1882-Óleo sobre papel sobre cartão, 34x51 cm - Amerterdão, Stedelijk Museum

"Tivemos aqui em toda a semana muito vento, tempestade e chuva, e eu estive muitas vezes em Scheveningen a observar.
Trouxe para casa duas pequenas composições sobre o mar. Já numa há muita areia, quando com uma forte borrasca o mar se aproximou das dunas, que tive duas vezes de a raspar completamente. A tempertade era tão forte que mal me aguentava de pé e quase nada podia ver por causa do redemoinho de areia". 

"Meu caro Théo, É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. Até certo ponto você se tornou um estranho para mim, e eu talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É impossível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinquenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo? E é portanto para agradecer que lhe escrevo".


 
"Fiz o rascunho de um desenho que representa uns mineiros indo para a mina, de manhã, na neve, por um caminho cercado por uma sebe de espinhos, sombras que passam vagamente discerníveis no crepúsculo. Ao fundo se confundem com o céu, as grandes construções das minas de carvão."


"Mas o caminho que sigo, tenho que manter; se não fizer nada, se não estudar, se não procurar, então estou perdido. Então ai de mim!"

"Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. “Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros”.
"Prefiro ter cem francos por mês e a liberdade de fazer com eles o que quero do que duzentos francos sem esta liberdade".

“Com tudo prefiro pintar os olhos dos homens, mas que as catedrais, pois nos olhos há algo que nas catedrais não há, mesmo que elas sejam majestosas e se imponham, a alma de um homem, mesmo que seja um pobre mendigo ou uma prostituta, é mais interessante a meus olhos.” (...)
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Busto de uma camponesa com touca branca' (detalhe) Nuenen, Março de 1885 - óleo sobre tela sobre madeira, 41 x 31,5 cm  Zurique, Cileção E. G. Bührle
“Já desenhei duas tardes lá, e devo dizer que acredito que, justamente para fazer figuras de camponeses, é muito bom desenhar à antiga, sob a condição, com tudo, de que não se faça como de hábito. Os desenhos que vejo, na verdade acho-os todos fatalmente ruins e radicalmente fracassados. E sei muito bem que os meus são totalmente diferentes: O tempo dirá quem está certo.”
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A sesta (segundo Millet) Saint-Rémy, janeiro de 1890 Óleo sobre tela, 73x91 cm - Paris, Musée d'Orsay

 

 "Eu afasto-me de tal maneira, que não vejo literalmente mais ninguém do que os camponeses com quem tenho diretamente a ver, porque os pinto". "Eu posso muito bem subsistir da vida e também na pintura sem o bom Deus, mas eu, uma criatura sofredora, não posso subsistir sem aquilo que é maior do que eu, que é toda a minha vida - a força da criação... gostaria de pintar homens e mulheres com o certo eterno para que para o qual antigamente o símbolo era a auréula e que nós procuramos expressar pelo brilho, pela agitação trêmula das nossas cores. Expressar o amor de um casal pelo casamento de duas cores complementares, pela sua mistura e contraste, pelo vibrar secreto de tonalidades aproximadas uma da outra. Expressar a inteligência de uma fronte através do brilho dum tom amarelo sobre um fundo escuro. Expressar a esperança através de uma estrela, a paixão de uma pessoa através de um por do sol brilhante".
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.A noite estrelada (Ciprestes e aldeia) Saint-Rémy, junho de 1989
Óleo sobre tela, 73 x 92 cm Nova Iorque, Metropolitan Museum of Art
"Quero dizer-te de antemão que todo mundo vai achar que trabalho demasiadamente depressa. Não acredites em nada disso. É antes a emoção, a sinceridade do sentir a natureza qua nos conduz a mão. E quando esta emoção é por vezes tão forte que se trabalha sem se dar por isso - e quando as pinceladas por vezes se seguem rápidas e se ligam umas às outras como as palavras numa conversa ou numa carta -, então não se deve esquecer que nem sempre foi assim e que também no futuro muitos dias virão deprimentes e sem qualquer inspiração".


“E me ocorre sentir-me já velho e fracassado e com tudo ainda suficientemente apaixonado para não ser um entusiasta da pintura. Para ter sucesso é preciso ambição, e a ambição me parece absurda. Não sei o que será, gostaria especialmente de viver menos as suas custas – e doravante isto não é impossível -, pois espero fazer progressos de forma que você possa, sem hesitações, mostrar o que faço sem se comprometer".

.Para este desenho foi modelo a amante de Vincent, Clasina Maria Hoornik. "Sorrow".
Pastel de giz preto, 44,5 x 27 cm. Haia. Abril de 1882. Londres, Coleção Garman Ryan .
Meu caro Theo... há algo que me atormenta e que eu quero te contar, talvez você já esteja a par, e eu não lhe conte nenhuma novidade. Eu queria lhe dizer que neste verão comecei a amar Sien. Mas quando me declarei, ela me respondeu que seu passado e seu futuro permaneciam inseparáveis para ela, e que jamais ela poderia corresponder aos meus sentimentos... 

Caminho de ciprestes sob céu estrelado Saint-Rémy, maio de 1890 -
Óleo sobre tela, 92x73 cm Otterio, Rijksmuseum Kröller-Müller
"Os ciprestes ocupam-me constantemente, gostaria de fazer deles alguma coisa semelhante às minhas pinturas de girassóis, pois admira-me que ainda não tenham sido pintados como eu vos vejo. Nas linhas e nas proporções são tão bonitos como um obelisco egípcio. E o verde é um tom fino muito especial. É a mancha negra numa paisagem batida pelo sol, mas é um dos mais interessantes tons negros; todavia, não, posso pensar em nenhum outro que seja mais difícil de obter. Tem de se ver os ciprestes aqui contra o azul, para dizer melhor, dentro do azul"


“É muito provável que eu ainda venha a sofrer muito. E, para lhe dizer a verdade, isto não me agrada, pois em hipótese alguma eu desejaria uma carreira de mártir. Porque sempre procurei algo diferente do heroísmo, que não tenho, que evidentemente admiro em outros, mas lhe repito, não acredito que seja meu dever ou meu ideal” (carta do pintor escrita do hospício de Arles para a irmã Wilhelmine)".


O quarto de Van Gogh - Esta pintura data de 1889,
no período em que Van Gogh morou em Arles, na França
Neste período ele pintou mais de duzentos quadros, e este retrata seu quarto na Casa Amarela, estúdio que fundou no local.
"Desta vez é muito simplesmente o meu quarto, aqui tem de ser a cor a fazer tudo; dando através da simplificação um maior estilo às coisas, deverá sugerir a ideia de calma ou muito naturalmente de sono. Em resumo, a presença do quadro deve acalmar a cabeça, ou melhor a fantasia"


A vinha vermelha

A vinha vermelha - Arles - 1888
Théo informa-o de que Anne Boch comprara em Bruxelas por 400 francos o seu quadro
Pouco tempo depois, de novo severo ataque que o obriga a um mês de internação. No "Salon des Artistes Indépendants", em Paris, expõe 10 quadros. Surgem quadros de grande formato com campos sob céu de trovoada. 
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Campos de trigo com corvos Auvers, Julho de 1890
 Óleo sobre tela 50,5 x 100,5 cm Amesterdão, Rijksmuseum Vincent van Gogh

Experimento uma terrível clareza em momentos em que a natureza é tão linda. Perco a consciência de mim mesmo e os quadros vêm como sonho, escreve no dia 23 a sua última carta. 
Na tarde do dia 27 sai, só volta pela noite e retira-se no quarto. O casal Ravoux nota que ele sofre de dores. Vincent confessa que se havia ferido com um tiro no peito. No dia 29 senta-se todo o dia na cama e fuma cachimbo. Durante a noite expira e é sepultado no dia seguinte no cemitério de Auvers.

Vincent van Gogh tinha apenas 37 anos




O túmulo de Van Gogh



Trechos do livro VAN GOGH de Ingo F. Walther
Imagens - Google
http://www.philipphauer.de/galerie/vincent-van-gogh-werke/

Um comentário:

  1. Elma, como é bom ler sobre o que sentia este grande artista que foi van Gogh. Como ele era uma pessoa atormentada, e que pena que não recebeu o reconhecimento por seu trabalho ainda em vida. Felizmente ele recebeu o apoio do irmão Theo, que o acompanhou mesmo de longe até o fim.
    Uma coisa que sempre me impressionou foi a quantidade de quadros que ele pintou em apenas 10 anos de vida artística. Vi uma exposição das paisagens dele em setembro e fiquei maravilhada, como elas conseguiam ser ainda mais bonitas que nas fotos (não é o caso para todos os artistas), valeu a pena rodar mais de 200 Km especialmente para vê-las.
    Beijos e parabéns pelo post.

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