Arte & Nazismo

.

A exposição da Arte Degenerada


O evento promovido em Munique pelos nazistas para desmoralizar grandes nomes da arte moderna, completou 72 anos.
Em 1911, o russo Wassily Kandinsky escreveu seu tratado Sobre o Espiritual na Arte, afirmando que as grandes realizações da pintura da vanguarda representavam gestos simbólicos de liberação universal. Como que prevendo o que viria pela frente, Kandinsky denunciava a existência de uma “mão negra”, o mal que procurava limitar a liberdade dos artistas com seu espírito conservador. A ela o artista contrapunha o “raio branco”, o espírito livre, construtivo, capaz de demolir preconceitos dos reacionários contra as inovações artísticas.

Nunca como até então as ideologias que irromperam após a Primeira Guerra Mundial utilizaram-se tão abertamente da estética para atingir seus objetivos políticos. Vivia-se na época da polit-art, quando a arte foi aparelhada, transformando-se num instrumento de uma monumental propaganda político-partidária, ocorrendo à restauração do naturalismo idealizado como a forma mais adequada e ajustada a serviço da política de estado."

Faxina estética nazista


A partir da ascensão dos nazistas ao poder, em 30 de janeiro de 1933, artistas e intelectuais judeus ou oposicionistas foram sendo afastados dos cargos públicos. Adeptos da arte moderna foram obrigados a abandonar os museus. A Escola Bauhaus — um dos centros fundamentais de ensino e propagação do modernismo nas artes visuais e na arquitetura — foi fechada no mesmo ano, pouco após ter sido transferida de Dessau para Berlim.


Foi por atuação pessoal de Alfred Rosenberg, o ideólogo oficial do partido nazista, que a luta contra o modernismo se materializou. Em 1927, ele publicou uma série de ensaios no jornal Völkische Beobachter sob o título geral de "Der Sumpf" (O pântano), em que acusava a estética do seu tempo de ser uma doença da alma, do desequilíbrio, da alienação, do resultado do capitalismo (dominado pelo mamonismo, isto é, pelo dinheirismo) em conjugação com o coletivismo, a cultura de massas manobrada por comunistas. Fonte.
A primeira afirmação sobre Arte Degenerada foi proferida por Hitler em 1934. Três anos depois é organizada em Munique a Exposição de Arte Degenerada, que percorreu a Alemanha recebendo mais de três milhões de visitantes. Obras de Kandinsky, Picasso, Paul Klee e muitos outros foram exibidas ao lado de desenhos de internos de asilos psiquiátricos.

Wassily Kandinsky e Paul Klee entre os artistas degenerados
Wassily Kandinsky e Paul Klee, perseguidos pelo nazismo tiveram obras confiscadas

"Se cada coisa a que deram à luz - disse ele - foi resultado de uma experiência interior, então eles são um perigo público e devem ficar sob supervisão médica […] se era pura especulação, então deviam estar numa instituição apropriada para o engano e a fraude". Adolf Hitler, sobre o artista moderno, 1933.

Catálogo da exposição sobre "Arte Degenerada": [ultrage e prejoração]

Em 19 de julho de 1937, centenas de alemães se dirigiram à tradicional galeria Hofgarten para a abertura da exposição Entartete Kunst – ou, em português, Arte Degenerada. Montada pelo Partido Nacional Socialista alemão, a mostra apresentava cerca de 650 pinturas, esculturas e gravuras, entre os mais de 5 mil trabalhos confiscados pelo governo alemão dos principais museus e galerias do país. Um dos discursos da noite foi o do nazista Adolf Ziegler: “Em torno de nós vê-se o monstruoso fruto da insanidade, imprudência, inépcia e completa degeneração. O que essa exposição oferece inspira horror e aversão em todos nós”, declamou, eufórico, aplaudido pelo público. Ficou claro que o objetivo da mostra era apresentar a arte moderna como um elemento pernicioso à estética nazista. No dia anterior, o governo tinha inaugurado na imponente Casa da Arte Alemã a Exibição da Grande Arte Alemã. A idéia era que o povo alemão comparasse a beleza da arte ariana aos devaneios das obras dos artistas modernos na Hofgarten

Exigências ideológicas do nazismo


Esperava-se do artista que, ao invés de concentrar-se em abstrações complicadas, descrevesse um mundo idílico, clássico, radioso, virtuoso, que imperaria no futuro não muito distante, desde que grande causa, fosse ela qual fosse, vencesse as suas rivais. Havia um imenso abismo entre os expoentes máximos da arte de vanguarda daquela época e as ambições estéticas feitas pelas ideologias dominantes em vários estados europeus nos anos vinte e trinta.

Obras inimigas


"Claro que uma exposição imaginada pelo ministro da Propaganda de Hitler não se limitava à seleção das obras. A maneira como elas seriam mostradas ao público também era importante. Os trabalhos foram dispostos de modo desorganizado e quadros foram pendurados tortos nas paredes, para provocar estranheza. Pinturas de doentes mentais de clínicas alemãs foram colocadas ao lado das obras de artistas consagrados. Comentários políticos moralizantes e slogans pejorativos eram apresentados em letras garrafais, ao lado".

Adolfo Hitler na “Arte Degenerada”
Adolf Hitler na tradicional galeria Hofgarten da exposição "Arte Degenerada

A arte moderna era, para o governo alemão, um barbarismo que precisava ser superado. E Goebbels usou a exposição para fazer parecer que esse julgamento partia do próprio público.

A campanha nazista contra a arte moderna começa com a tomada do poder. Em 1933, Hitler fecha a Bauhaus e promove a primeira campanha difamatória contra a arte moderna em Karlsruche e Mannheim. Segue-se a cassação de diversos curadores, diretores de museus e artistas professores como Villi Baumeister (1889-1955) e Otto Dix. Os artistas começam a emigrar. Livros são queimados em praça pública e inicia-se um verdadeiro processo de expropriação arbitrária pelos nazistas pelos acervos dos museus: mais de 16 mil obras de arte consideradas degeneradas são confiscadas, muitas das quais destruídas ou perdidas.
Obras e valor - como Auto-Retrato (1888) de Vincent van Gogh ou Acrobata e Jovem Arlequim (1905), de Pablo Picasso – são vendidas num leilão em 1939 na Galeria Fischer, em Lucerna, Suíça e revertidas em divisas para os nazistas. Nota-se que o c0mportamento político ou religioso dos artistas passa a não importar, sendo perseguidos todos aqueles identificáveis com qualquer corrente oposta às diretrizes artísticas nacionalistas e de cunho realista estabelecidas pelo governo.
Na mencionada exposição de 1937, em Munique, são apresentados trabalhos tanto dos expressionistas alemães quanto de Henri Matisse, Picasso, Georges Braque, Piet Mondrian, El Lissitzky, Paul Klee, Marc Chagal, Wassily Kandinsky, Otto Freundlich, Otto Dix, Max Ernest, George Grosz e outros. Lazar Segall que emigra para o Brasil em 1923 e naturaliza-se brasileiro, é representado por seis trabalhos, dos quais apenas dois podem ser vistos ainda hoje. Sucesso absoluto de público (mais de 2 milhões de visitantes), a exposição viaja por diversas cidades alemãs e austríacas até 1941. Itau Cultural
Otto Freundlich escondeu-se mas foi descoberto e deportado para o campo de Maidanek, na Polónia, onde viria a morrer em 1943.

Os alemães expressionistas em evidência na época também foram chamados de degenerados e incluídos na exposição. Emil Nolde foi o campeão, com 1 052 trabalhos confiscados.

Com o fim da Segunda Guerra e a derrota do nazismo, as artes plásticas naturalmente deixaram para trás os ideais da doutrina. Hoje, praticamente nenhum dos artistas que viraram obedientes soldados da estética nacional-socialista é lembrado. O contrário aconteceu com os perseguidos pelos nazistas. Esses, justamente, alcançaram reconhecimento histórico nas artes. do século 20.

Paul Klee no Brasil

Paul Klee no MAC-litogravura”
A SANTA DA LUZ INTERIOR - 1921 - litografia s/ papel - 38,9 x 26,7 cm - Quadro da "Arte Degenerada" de Paul Klee hoje pertencente ao MAC -

Uma das obras do suíço Paul Klee presentes na Arte Degenerada veio parar no Brasil. A gravura A Santa da Luz Interior hoje pertence ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. O catálogo da mostra de 1937 colocava a gravura de Klee ao lado de um trabalho produzido por um doente mental que também retratava uma santa.

Próxima Postagem: Paul Klee -"Eliminado da Lista".
.

6 comentários:

  1. Nossa, que coisa impressionante, como o poder pode querer sufocar a expressão artística dos povos e moldar a arte (e com ela o próprio pensamento humano) segundo suas doutrinas. Felizmente eles não conseguiram alcançar seus objetivos, e foi o contrário ao desejado por eles que aconteceu, a liberdade venceu e estes artistas por eles considerados como degenerados foram consagrados.
    Excelente post, parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Obrigada Elma por este post.
    Tinha uma ideia muito vaga sobre este assunto.
    Pavorosa esta visão da sensura e da manipulação da arte a favor da idealogia politica.

    Um beijo

    Ana

    ResponderExcluir
  3. Elma, quanta coisa boa neste blog!!! Parabéns!!!
    Bjs.

    ResponderExcluir
  4. "Arte Moderna" é uma Merda de degenerados, alcoolicos, depressivos e charlatões sem talento! Por isso que ainda em 1918, essa "arte moderna" foi proibida na União Sovietica, aliás, "arte moderna" teve só no Ocidente liberasta e degenerado!

    ResponderExcluir
  5. Ótimo post...ajudou bastante no meu trabalho! xD

    ResponderExcluir
  6. A Arte "moderna" no comunismo foi considerada Fraqueza Burguesa e Lixo Capitalista e como tal totalmente destruída desde 1918 ate 1991!

    ResponderExcluir

Obrigada por chegar até aqui. Seu comentário será valioso para que eu receba através dele, a sua opinião, prova da nossa interação.

Esse blog foi feito para você.

" ARTE é o conhecimento usado para realizar determinadas habilidades ou beleza transcendente de um produto de atividade humana".


Elma

Copyright © 2013 Espaço das Artes and Blogger Templates - Anime OST.